sábado, 14 de maio de 2011

“Suicídio expressivo”

Ouvem-se passos inseguros, que marcam um inicio…

Por entre o corredor frio e escuro, é levado um vestido da cor da paixão. O contraste alimentado entre o vermelho do vestido e as cores mortas do corredor, faz-se notar. O pó ganha tom e a ferrugem das celas ganham vida.

Os passos começam-se a ouvir cada vez mais fortes…

Chegando ao destino ganha prioridade um ângulo de visão. O guarda prende a imagem criada dentro da ultima cela. Habitada pela tal mulher conhecida como a “Artista” e “Viúva Negra”. Por de trás do inocente e belo olhar esconde uma colectânea de pensamentos astutos, macabros e criativos. Nunca matou ninguém da mesma forma, mas seduz sempre a sua presa inicialmente, como se de um ritual se trata-se. Dentro da cela vê-se a mulher a observar o seu próprio encanto, pelo espelho ligeiramente rachado e sujo pelos que se observaram antes.

O barulho enferrujado e arrepiante da porta da cela a abrir faz mover a cara da moça. Para presenciar o seu tão esperado vestido vai até ao guarda. O olhar hipnotizante da sedutora fixa o olhar do guarda, colocando-o nervoso. Misteriosamente passa as mãos no cabelo e retira uma seringa sem que nem as sombras do quarto reparassem. Mordendo os lábios sensualmente, sussurra-lhe ao ouvido “Obrigado”. Abraça-o e injecta o liquido da seringa para o guarda entrar em pleno sono. Coloca-o na cama e tira a faca que ele tem guardado sempre. Corta seu traje prisional e veste o vestido vermelho. Corta a maior parte do seu cabelo e espalha pelo quarto, dando a ele um tom dourado. Coloca uma tela à frente dela e penetra seu vestido e seu ventre.

Ouve-se gemidos de dor e gritos da cela da frente. Várias gotas da cor da paixão caiem na tela…

Depois… com a tela e o chão já preenchidos com sangue ela perde força nas pernas e ajoelha-se em frente à tela pintada com a vida…e… beija-a assinando sua obra. Retira o mais rápido que pode a faca, colocando-a na mão do guarda adormecido. Na sua chaga mete a mão à procura do coração.

Segurando nele, sente as ultimas batidas ao ritmo do seu orgulho…

Caiu perto da cama e o coração pára definitivamente definindo um sorriso melancólico e de concretização. Seus olhos fecham, e uma borboleta entra pela janela onde entra a única vaga de luz e poisa no quadro…

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Vício



Detesto-te cruel parasita que queimas o meu tempo. Se ao menos fosses vital, mas não... Vicio impuro que estás entranhado no ser dos meus hábitos! Tu não podes mais me consumir... CHEGA...
Como é possível fazeres-me tão mal prometendo-me tanto prazer?! Como consegues roubar o intimo da minha vontade, aproveitando-te das minhas atitudes como desculpa? A forma esfomeada como o teu plano mancha o cerne da minha dignidade, é brilhante admito. Aproveitas-te da atracão que te rodeia para iluminares um caminho fácil. No instante que a justa realidade colide com a tua traiçoeira conjunção de mentiras, somos apanhados numa grande teia. A tua peculiar entrada constante no meu cérebro vai acabar... Acabas-te de acender uma batalha pessoal, que o teu orgulho queima e onde eu e tu nunca sairemos impunes, mas, a tua morte é iminente. A mudança poderá não ser repentina, mas vai nascer, crescer e ganhar raízes.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

“!!! … “

!
Fim de uma história,
Composta pelos seus próprios escritores.
Esquecida no tempo,
Escrita e sentida no mesmo momento.

Texto escrito e reciclado ao sabor do tempo.
Jamais desaparecerá,
Mas nunca mais vai ser recordado.

Emoções ao ritmo do batimento cardíaco;
Pensamentos à velocidade da luz;
Desejos formulados e reformulados.

Mil e uma incógnitas
E apenas uma equação.

Tudo Registado,
Tudo Esquecido…

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Escrita momentanea

Detesto estes momentos. Odeio estes nossos fantasmas, que quando libertados vagueiam pela nossa mente e pela nossa alma, ceifando a esperança e sugando a nossa energia. Fantasmas que só sabem abrir gavetas feias, aquelas onde habitam todos os nossos medos e inseguranças.
Quando esses tão íntimos parasitas da mente abrem a gaveta certa, as flores que outrora libertavam esperança, passam a transparecer tristeza e solidão. O que nos parecia um simples passeio, torna-se numa maratona sem fim. E até as expressões como “Amo-te”, passam a ser pronunciadas de uma forma assustadoramente desesperada. Basta um clic, um gesto, uma palavra, uma simples imagem, para esses fantasmas vagabundos vestirem-se com o manto a que damos o nome de tristeza.
Mas, existe sempre um “mas”. No final de tudo, existe quase sempre um alivio, um despedimento desses fantasmas, e um fechar das gavetas indesejádas. E as expressões como “Amo-te” começam a ser ditas de uma forma mais sincera e sentida :).

Depois de tantos Fantasmas que vêm e vão… posso dizer que "Amo-te bastante"…

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Foi à 20 anos atrás...

Foi à 20 anos atrás, se bem me recordo, quando eu entrei dentro de um novo lar. –“Lar doce lar”, disse eu mal entrei no apartamento. Tínhamos acabado de vir do outro lado do mundo, Austrália, para este pais acolhedor onde ainda vivo, chamado Portugal. O meu pai trabalhava numa loja onde se exportava muita fruta para fora, e a minha mãe ficava ocupada a cuidar da nossa antiga e grande casa. O meu pai era um homem de família, muito responsável e extremamente sério. Era raro vê-lo expressar os seus sentimentos. Em contraste, a minha mãe era muito expressiva e comunicativa, não guardava nada para ela.
Numa noite, daquelas onde o vento não pára de gritar, estava eu a tentar dormir dentro da minha tão confortável cama, depois de ter descoberto que a minha mãe estava grávida, até que algo me estimula a atenção. Não percebi muito bem na altura o que se passava, e portanto levantei-me e dirigi-me até à janela mais próxima. Quando a abro sinto um bafo extremamente quente, chocando na minha nuca, que me faz quase que involuntariamente olhar para cima. Foi nessa altura em que ouvi um vizinho a suplicar num berro desesperado, “FOGO NO PRÉDIO, SAIAM JÁ PARA A RUA!”. A partir daí, tudo parecia passar-se à velocidade da luz, como se o berro tivesse accionado um botão qualquer no meu cérebro. Corri para o quarto dos meus pais, e acordei-os de imediato. Conto o que se estava a passar, enquanto dava-lhes roupa para as mãos agitadamente e gritava para se vestirem rápido e saírem de casa.
Começamos a correr pelo corredor do nosso andar até às escadas. Descemos os degraus quase em sprint até chegar ao hall de entrada. Finalmente depois de toda aquela correria, entre a minha família e entre todos os outros habitantes do prédio, estávamos salvos pensei eu, mas, estava enganado. De repente senti um grande arrepio pela coluna acima e uma grande angústia e aflição a dominarem todo o meu corpo jovem. Olhei desesperadamente para todos os lados e não via a minha mãe. Meu pai começou a berrar, de uma forma que nunca antes tinha visto, pela minha mãe, mas, nada. Meu pai não pensa duas vezes e entra dentro do prédio atrás da minha mãe, e grita, “TELMO, NÃO DEIXES O MEU PUTO ENTRAR!”.
O botão que antes tinha sido accionado no meu cérebro parecia que tinha sido agora desligado. Um segundo era agora uma eternidade. Inesperadamente pela porta do prédio, sai a minha mãe em direcção a mim com um olhar quase neutro. Agarra-me com tremenda força, e minhas lágrimas começaram a escorrer pela minha face pálida suja pelo fumo do incêndio. Olhei para ela depois do demoroso abraço, e a mulher que costumava expressar tudo o que sentia, parecia impune perante o acontecimento, com uma expressão apática, mas pavorosamente profunda. “O teu pai não conseguiu sair!”, foi sem dúvida a frase mais difícil de ouvir até hoje.
Agora passado 20 anos, e se por acaso existe algum propósito no meio deste aglomerado de acontecimentos a que chamamos “a engrenagem da vida”, percebo que o imponente incêndio queimou uma parte da minha vida, mas não deixou que não fosse iluminada outra. Minha irmã nasceu, passado 4 meses depois do horror, saudável e esperta. Agora tudo é mais tolerável.
A morte não passa de mais uma fase da vida, e talvez não a ultima.

terça-feira, 2 de março de 2010

Conversa de praça

Verdade
Êxtase da realidade,
E cárcere da imaginação.

Verdade crua, fria, dura.
Repleta de razões,
Sem espaço para utopias,
Nem para falsas explicações

Sempre presente mesmo na sua ausência.
Sem clemência à fraude.
Desprovida de prazer e pudor.
Destituída do belo.
Sempre a verdade.

Sem certezas sobre o oposto da mentira,
Tudo é relativo.

Sendo tanto a mentira como a verdade
Relativas ou absolutas,
E dependentes de um sistema de valores,
Como podemos afirmar ou negar,
Que a verdade é real
E que a realidade é verdadeira?


Eu não gosto de laranjas, pois elas não existem.

Lol mais um texto diferente do normal :P

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ataraxia onde estás tu?


Olha para uma tela nua, vazia de sonhos. Dá-se início à lucubração e às pinceladas intuitivas ao ritmo da tal canção dos anos 60. A rádio antiga, vomita a voz rouca do cantor que, mesmo estando morto, continua vivo e que é ouvido pelo pobre pintor.

Pára e olha para a tela preenchida com traços e manchas sem harmonia ligadas umas às outras. Fechado no seu mundo, tenta ele com a sua lumieira que é a inspiração, intelectualizando com o coração e sentimentalizando com o intelecto, fazer algo louvável. Até que repara que está condenado à sua imperfeição. Nada do que ele pintou o vai tornar imortal. Como conseguiria ele? Ele não importa para ninguém. Amava ser como o cantor que ainda fala com ele. Amava não morrer.

Lágrima escorre-lhe pela sua face pálida e finta seus traços do rosto caindo na palete intrometendo-se com a tinta. Tanta angústia, tanta nostalgia, tanta utopia. Respira ofegantemente e agarra os seus cabelos num sinal de desespero. Pega num cigarro e observa-o.

O fumo vai subindo desenhando no ar formas senis e curvas vazias. Ouve-se o comboio e corta-se o silêncio interior. Pega nas cinzas do cigarro e escreve na tela com tinta ainda húmida:

“Desculpem. Não volto a tentar. Desisto de preencher todas as telas nuas que encontro com as minhas pinceladas como se de rimas momentâneas se tratassem. Acabou a tentativa do impossível. Ninguém se importa. Só farsa e mentira. Para quê tentar transmitir toda a verdade se ninguém liga? “Eu sou um num milhão”. Nada mais posso fazer. Estou morto.”

Dando uso ao cinzeiro, e encerrando a dança dos fumos, olha desoladamente pela janela e reflectindo no que escrevera e no que as suas palavras representavam, largou uma ultima lágrima. Como poderia o mundo continuar igual? Depois de toda aquela guerra interior? Depois de todas aquelas lágrimas derramadas e de todos os cigarros incendiados?

A música muda, a voz do morto retira-se e apresenta-se outra. Assim é como ele pensa que é a vida. Somos um num milhão como uma amiga lhe disse. Nascemos, crescemos, fazemos algo louvável (ou não) e morremos. Uns continuam vivos e outros calam-se para sempre. Eis o simplista e cru ciclo em que ele acredita, pelo que todos passamos e que nada muda.

Que verdade mais mordaz.